Mostrando postagens com marcador literatura. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador literatura. Mostrar todas as postagens

segunda-feira, 13 de setembro de 2021

Dose de poesia com Cora Coralina

 


“Mesmo quando tudo parece desabar, 
cabe a mim decidir entre rir ou chorar,
ir ou ficar, desistir ou lutar; 
Porque descobri, no caminho incerto da vida, 
que o mais importante é o decidir” 

Cora Coralina, poetisa goiana

terça-feira, 21 de janeiro de 2020


O melhor 'café' matinal é quando ele rima com aquela atitude de espírito: 'cá fé'... engajados  chamamos a nós a esperança no porvir, confiança no ouvir o coração e temperança no devir°, que é o vir ininterrupto abrupto ponteiro,  píer° compulsório sanatório da incertezas para atracar de surpresas e feliz avir° que condiz com o diz-que° "pode melhorar".

Daniel Alencar

Glossário:

 ° Devir: Vir a ser; tornar-se, transformar-se, devenir;
°  Píer: Construção que avança para o mar, perpendicular ou obliquamente ao cais, para atracação de embarcações por um ou ambos os lados;
° Avir: Entrar em entendimento, conciliar (-se)
°  Diz-que: Disse me disse.

terça-feira, 29 de outubro de 2019

terça-feira, 2 de julho de 2019

#citação

"Sou como você me vê. Posso ser leve como uma brisa ou forte como uma ventania, depende de quando e como você me vê passar."


Clarice Lispector

terça-feira, 30 de abril de 2019

sê inteiro

Para ser grande, sê inteiro: nada
Teu exagera ou exclui.
Sê todo em cada coisa. Põe quanto és
No mínimo que fazes.
Assim em cada lago a lua toda
Brilha, porque alta vive.

Fernando Pessoa , Odes de Ricardo Reis. Lisboa: Ática. 1946 (imp.1994). P. 148.

quarta-feira, 13 de fevereiro de 2019

Manoel de Barros,escreve sobre seu pai


_Fecho os olhos de novo.
Descanso.

Logo sinto fluir de mim
Como um veio de água saindo dos flancos de uma pedra,
A imagem de meu pai.
Ouço bem seu chamado.
Sinto bem sua presença.
e reconheço o timbre de sua voz:
___Venha meu filho,
Vamos ver os bois no campo e as canas amadurecendo
ao sol,
Ver a força obscura da terra que os frutos alimenta,
Vamos ouví-la e vê-la:
A terra está úmida e os potros ariscos a riscam de seus
empinos e de suas soltas crinas,
Vamos,
Venha ver as cacimbas dormindo repletas!
Venha ver que beleza!
..........
Abro os olhos.
Não vejo mais meu pai.
estou só.
Estou simples.

_____(Poesias)

terça-feira, 26 de junho de 2018

Nunca é tarde | poesia de Bráulio Bessa

O tempo se escorrega
Despretenciosamente
Não há força que segure
Por mais que a gente tente
Cada minuto pra trás
Foi um que andou pra frente
E mesmo correndo doido
Nesse galope feroz
Vez por outra ele amansa
E deixa de ser algoz
Inté parece que diz:
Dá tempo de ser feliz
Pois nunca é tarde para nós
Nunca é tarde para viver
E aprender com a vida
Pra perceber que a estrada
Nem sempre será florida
E que sempre há uma cura
Até pra pior ferida
Nunca é tarde para o rancor
Se transformar em perdão
Pra perceber que nem sempre
Você tem toda razão
Pra sentir mais com a mente
E pensar mais com o coração
Nunca é tarde para ser bom
Quando a maldade chegar
Nunca é tarde pra sorrir
Quando a lágrima rolar
Nunca é tarde pra ser forte
Quando o corpo fraquejar
Acredite, nunca é tarde
Pra abraçar um amigo
Pra proteger um estranho
Que tá correndo perigo
Nunca é tarde pro seu peito
Se tornar um grande abrigo
Nunca é tarde para plantar
Uma árvore no chão
Nunca é tarde para ser grato
Por nunca faltar o pão
E aprender a dividi-lo
Com quem não tem nenhum tostão
Nunca é tarde para sonhar
Em algo quase impossível
Entender que a esperança
Nem sempre será visível
Nunca é tarde para o fraco
Se torna um imbatível
Imbatível como o tempo
Que todo dia avisa
Que a conta que ele faz
Quase sempre é imprecisa
E até a calculadora
Não sabe e fica indecisa
A conta de quando
A peça da vida sai de cartaz
Onde o ator principal é você
E ninguém mais
O tempo é um segredo
E acredite, é muito cedo
Pra dizer tarde demais.

Escute: https://www.youtube.com/watch?v=iVjhtVxZNH0

quarta-feira, 14 de março de 2018

Formas | Roldan Alencar

Rosto redondo
Rosto quadrado
Rosto roliço
Rosto retangular
Rosto curto
Cara longa
Cara apertada
Olhar latente
Olhar sério
Semblante comovido
Cabelo curto
Cabelo longo
Às vezes liso, às vezes alisado
Outros são crespos, até ondulados
Riso Frouxo
Expressão suspeita
Choro sincero
Riso aberto

A beleza é multifacetada
Os olhos são seletivos
Alguns são cegos
mesmo enxergando tudo

Roldan Alencar


terça-feira, 27 de junho de 2017

terça-feira, 30 de agosto de 2016

A velhinha contrabandista

 Narrativa intrigante, vale a pena ser lida:


      Todos os dias uma velhinha atravessava a ponte entre dois países, de bicicleta e carregando uma bolsa. E todos os dias era revistada pelos guardas da fronteira, à procura de contrabando. Os guardas tinham certeza que a velhinha era contrabandista, mas revistavam a velhinha, revistavam a sua bolsa e nunca encontravam nada. Todos os dias a mesma coisa: nada. Até que um dia um dos guardas decidiu seguir a velhinha, para flagrá-la vendendo a muamba, ficar sabendo o que ela contrabandeava e, principalmente, como. E seguiu a velhinha até o seu próspero comércio de bicicletas e bolsas.

      Como todas as fábulas, esta traz uma lição, só nos cabendo descobrir qual. Significa que quem se concentra no mal aparentemente disfarçado descuida do mal disfarçado de aparente, ou que muita atenção ao detalhe atrapalha a percepção do todo, ou que o hábito de só pensar o óbvio é a pior forma de distração.

(VERISSIMO, Luis Fernando. O mundo é bárbaro. Rio de Janeiro: Objetiva, 2008, p. 41)

sexta-feira, 22 de julho de 2016

Três Poemas de Mário Quintana

A Rua dos Cataventos

Da vez primeira em que me assassinaram,
Perdi um jeito de sorrir que eu tinha.
Depois, a cada vez que me mataram,
Foram levando qualquer coisa minha.

Hoje, dos meu cadáveres eu sou
O mais desnudo, o que não tem mais nada.
Arde um toco de Vela amarelada,
Como único bem que me ficou.

Vinde! Corvos, chacais, ladrões de estrada!
Pois dessa mão avaramente adunca
Não haverão de arrancar a luz sagrada!

Aves da noite! Asas do horror! Voejai!
Que a luz trêmula e triste como um ai,
A luz de um morto não se apaga nunca!



Poeminho do Contra

Todos esses que aí estão
Atravancando meu caminho,
Eles passarão…
Eu passarinho!



Os Poemas

Os poemas são pássaros que chegam
não se sabe de onde e pousam
no livro que lês.

Quando fechas o livro, eles alçam voo
como de um alçapão.
Eles não têm pouso
nem porto
alimentam-se um instante em cada par de mãos
e partem. E olhas, então, essas tuas mãos vazias,
no maravilhado espanto de saberes
que o alimento deles já estava em ti…


domingo, 5 de junho de 2016

Os 10 livros clássicos que você precisa ler agora

A seguir, veja a lista completa com 10 livros imperdíveis e amplie seu conhecimento:

1 – Odisseia

Odisseia, cuja autoria é atribuída a Homero, é um poema épico que narra os grandes acontecimentos da Grécia Antiga, mas que não tem comprovação histórica, já que o texto foi produzido segundo relatos seculares do povo grego. O livro é a continuação da Ilíada, em que Homero descreve, de forma bastante original, como teria sido a Guerra de Troia. Em Odisseia, o leitor embarca em uma aventura e acompanha a jornada do herói grego Odisseu, também conhecido como Ulisses, a caminho de Ítaca, sua terra natal, depois do fim da Guerra de Troia.


2 – Dom Quixote

Escrito pelo espanhol Miguel de Cervantes, Dom Quixote teve sua primeira edição publicada em 1605, na cidade de Madrid. O livro, que é um dos maiores e mais populares clássico da literatura mundial, conta a história de Dom Quixote de La Mancha, um fidalgo que começou a confundir realidade com fantasia, após muitos anos se dedicando à leitura de romances de cavalaria. Na companhia de Sancho Pança, seu amigo e fiel escudeiro, Dom Quixote inicia uma jornada épica em que se torna um grande cavaleiro, pelo menos em sua imaginação.

3 – O Morro dos Ventos Uivantes

Único romance da escritora britânica Emily Brontë, O Morro dos Ventos Uivantes é uma narrativa contada pela governanta Ellen Dean, que descreve, a partir do que vê e vivencia em uma propriedade rural do Condado de Yorshire, na Inglaterra, os acontecimentos que rodeiam a vida de uma família.

4 – O Primo Basílio

Um dos principais títulos do realismo português, O Primo Basílio é uma obra que costuma aparecer nas listas dos vestibulares de universidades brasileiras, mas entra também na seleção de livros que todos precisam ler, ao menos uma vez na vida. Escrito por Eça de Queirós, que também é autor de clássicos como Os Maias e O Crime do Padre Amaro, o livro é uma história intensa de paixão, ciúme e traição, e faz um retrato da vida burguesa do século XIX.

5 – Madame Bovary

Considerado um dos primeiros representantes do romance realista, Madame Bovary foi escrito pelo francês Gustave Flaubert e publicado em 1897. O livro causou grande impacto na sociedade da época, pois, como em O Primo Basílio, o autor descreveu detalhes da vida burguesa, como casamentos mal-sucedidos e relações extraconjugais.

6 – Dom Casmurro

Um dos livros mais populares da literatura nacional, Dom Casmurro foi escrito pelo célebre Machado de Assis, considerado por muitos especialistas o maior escritor brasileiro de todos os tempos. A obra conta com um narrador personagem, que também é o protagonista da história. Bento Santiago, que vive “ensimesmado”, como descreve o autor, em sua velhice solitária, tenta recuperar fatos da época em que era jovem, para “unir as duas pontas da vida”. A obra também apresenta um dos personagens mais emblemáticos da literatura brasileira: Capitu, com seus “olhos de cigana oblíqua e dissimulada”.

7 – Cem Anos de Solidão

Umas das obras-primas do vencedor do prêmio Nobel de literatura de 1982, o escritor colombiano Gabriel García Márquez, Cem Anos de Solidão conta a história da família Buendia  fundadores da cidade de Macondo, um paraíso perdido em meio a vales e florestas da América Latina. Na obra, Gabo, como era conhecido o escritor, narra a vida dos membros da família e também os acontecimentos fantasiosos que rodeiam a misteriosa cidade.

8 – O Apanhador no Campo de Centeio

Romance do escritor norte-americano J. D. Salinger, O Apanhador no Campo de Centeio foi inicialmente publicado no formato de revista e, em 1951, passou a ser disponibilizado como livro. A trama conta um dia na vida do jovem nova-iorquino Holden Caufield, que começa a divagar sobre suas dúvidas e inseguranças, típicas da adolescência.

9 – Lolita

Escrito por Vladimir Nabokov, escritor russo naturalizado norte-americano, Lolita é um romance polêmico, publicado pela primeira vez em 1955, que narra a relação entre um professor de literatura de quase 40 anos, Humbert Humbert, e uma jovem menor de idade, apelidada por ele de Lolita.

10 – Ensaio sobre a Cegueira

Ensaio sobre a Cegueira foi além das bibliotecas e tornou-se um grande sucesso do cinema. O livro, do escritor português José Saramago, conta a história de uma cidade abatida por uma epidemia repentina de cegueira, em que somente uma mulher fica imune. A doença é uma metáfora utilizada por Saramago para retratar a impotência humana, o preconceito e outros traços psicológicos e sociais inerentes a nossa existência.

Fontes: Universia Brasil

terça-feira, 10 de maio de 2016

"... o vento fresco da tarde..."

Um bem-te-vi me visita todas as manhãs. Assenta-se no peitoril da janela e se põe a dar bicadas no vidro. Por que ele bica o vidro? Porque ele vê um bem-te-vi assentado no peitoril da janela, bem à sua frente. Inimigo. Como se atreve a invadir o seu espaço? Não conhece ele as regras dos pássaros, que cada pássaro tem um espaço que é só seu e que não pode ser invadido por estranhos? Umas valentes bicadas vão ensinar-lhe quem é que manda ali. E lá vão as bicadas... Mas o danado do invasor é muito rápido. Parece adivinhar o que ele vai fazer. Ele também bica, no exato momento, no exato lugar da sua bicada. Os dois bicos se chocam e o outro não se abala. Depois de várias tentativas frustradas ele se sente derrotado e vai embora. No dia seguinte, esquecido do que aconteceu, ele volta e repete tudo o que havia feito na véspera. O bem-te-vi não aprende. Ele não desconfia... Bem-te-vis não sabem o que são espelhos.

Nem todos sabem o que são espelhos. Jorge Luis Borges conta de um selvagem que caiu morto de susto ao ver pela primeira vez sua imagem refletida no espelho. Ele pensou que seu rosto havia sido roubado por aquele objeto mágico. É verdade que, vez por outra, também nos assustamos ao ver nossa própria imagem refletida num espelho - mas por outras razões. Nem sempre é prazeroso ver o nosso próprio rosto.

O místico Ângelus Silésius disse, num poema, que nós temos dois olhos. Com um olho nós vemos as coisas do mundo de fora, efêmeras. Com o outro nos vemos as coisas do mundo de dentro, eternas.

Efêmeras são as nuvens, efêmeras são as florações dos ipês, efêmero é o nosso próprio rosto. Heráclito, filósofo grego, para falar do efêmero das coisas, disse que elas são rio, que elas são fogo. O rio é sempre outro. O fogo é sempre outro. A cada momento que passa as coisas que eram não são mais. Todas as coisas do mundo de fora, efêmeras, se refletem em espelhos. Olhamos para a superfície do lago, espelho. Nele aparecem refletidas as nuvens, os ipês, o nosso rosto. E sabemos que são reflexos. Ao vê-las não nos comportamos como o bem-te-vi.

Mas dentro de nós existe um outro mundo que está fora do tempo. Na memória ficam guardadas as coisas que amamos e perdemos. Não existem mais, no mundo de fora. Mas são reais, no mundo de dentro. Como disse a Adélia Prado, "aquilo que a memória ama fica eterno". Na alma as coisas ficam eternas porque ela, a memória, é o lugar do amor. E o amor não suporta que as coisas amadas sejam engolidas pelo tempo.

As coisas que existem no mundo de dentro aparecem refletidas no espelho da fantasia. A fantasia é o espelho da alma. Muitas pessoas, contemplando as imagens que aparecem refletidas no espelho da fantasia, as tomam como realidade. Comportam-se como o bem-te-vi. Quem se comporta como o bem-te-vi, confundindo imagens com a realidade, é louco.

Muitas são as expressões do espelho da fantasia. Os sonhos, por exemplo. Ninguém confunde os sonhos com a realidade de fora. Os sonhos são imagens do mundo de dentro. Reflexos da alma. Também a arte. Um quadro de Van Gogh não é um reflexo do mundo de fora. Pintores não pintam o mundo de fora. Por que pintá-lo, se ele já existe? Um quadro de Van Gogh é o mundo, tal como ele aparece refletido na alma do pintor. Em qualquer quadro está refletido o rosto da alma. O mesmo é verdadeiro das imagens da religião. As imagens da religião não são imagens de um mundo que existe do lado de fora. São imagens do mundo que existe do lado de dentro. Retratos da alma. Conte-me sobre a sua religião e eu lhe direi como é a sua alma. Muitas pessoas, possuídas pela loucura do bem-te-vi, tomam as imagens da religião como reflexos de coisas que existem no mundo de fora. E, assombrados ou embriagados por elas, fazem as coisas mais incríveis.

Dentre as mais belas imagens jamais produzidas pela religião estão os poemas da Criação. Os bem-te-vis lêem os poemas da criação e pensam que eles são descrições de eventos que aconteceram do lado de fora, efêmeros, no tempo. E aí se põe a brigar com a ciência. A ciência, essa sim, são os reflexos do mundo de fora. E acontece que os reflexos da ciência são diferentes dos reflexos da religião: um Big-Bang, milhões de galáxias, a progressiva evolução da vida, o homem emergindo dos animais ditos inferiores, através de um longo processo, no tempo. Os bem-te-vis brigam com a ciência, sem se dar conta de que os poemas sagradas nada sabem sobre o mundo de fora. Eles só sabem sobre o mundo de dentro. Esses poemas não são ciência. Não pretendem dizer aquilo que aconteceu lá fora, no mundo do tempo. São poesia. Descrevem o eterno caminho da alma em busca da felicidade, em busca do Paraíso. A alma é bela porque nela mora, eternamente um Paraíso perdido... Deus é o nosso reflexo, no espelho... Está dito no próprio poema que Deus nos criou como imagem de si mesmo. Deus se vê ao nos contemplar. E nós nos vemos, ao contempla-lo. Deus é a nossa imagem refletida no espelho da fantasia. Como disse Ângelus Silésius, "o olho com que Deus nos vê é o mesmo olho com que o vemos..."

O que teria levado Deus a criar? Quando estamos felizes não pensamos em criar. Não é preciso. O gozo da felicidade nos basta. O impulso criativo nos vem quando sentimos que algo está faltado, que a vida poderia ser melhor. Criamos para curar nossa infelicidade. O poeta alemão Heine escreveu um poema "A canção do Criador", no qual ele diz que Deus criou porque estava doente. Criou para ficar com saúde. Deus só pode ter criado porque o seu mundo de espíritos, anjos e realidades espirituais não lhe bastava. Ele tinha fome de formas, cores, perfumes, sons, gostos. A Criação é o banquete que Deus preparou para sua fome. Deus tem fome de matéria. Deus tem fome de beleza. A Criação é o poema que descreve a culinária divina. Aquilo que Ele criou, isso é o que lhe dá prazer. Ninguém irá pensar que Deus pode criar algo pior do que o que já existia. Se criou algo novo, é porque esse novo era melhor: o nosso mundo é melhor do que aquilo que havia desde toda eternidade...

"No princípio de todas as coisas a terra era sem forma, vazia, e o Espírito de Deus pairava sobre a face das águas... E disse Deus: 'Haja luz'. E houve luz! E viu Deus que era bom". Assim se inicia o poema: com o que de mais espiritual existe. Haverá coisa mais espiritual que a luz? Era bom, mas não o suficiente. Se fosse suficiente, Deus teria ficado feliz. Mas não ficou. E conta o poema que a criação vai acontecendo, num processo de afunilamento - dos espaços espirituais infinitos para espaços cada vez mais limitados e definidos: o sol, a lua, as estrelas, a terra seca, as águas. Tudo muito bom, mas não o suficiente. Até que chega o momento culminante: Deus cria um pequeno espaço, um jardim - um Paraíso.

Um jardim é uma excitação aos sentidos. De que adiantariam as cores das flores se não houvesse olhos que as percebessem? De que adiantariam os seus perfumes se não houvesse narizes que os sentissem? De que adiantariam os gostos das frutas se não houvesse bocas que se deleitassem com eles? Um jardim é um objeto de felicidade. Terminada a sua criação, diz o texto sagrado: " ... e viu Deus que era muito bom." Nada de melhor poderia existir. Diz ainda o texto sagrado que aquele jardim era "um lugar de deleites." O movimento do espírito é na direção da matéria. Como espírito puro ele está infeliz, incompleto. Como uma canção que nunca é cantada. Quando o espírito dá forma à matéria, aí temos a beleza. E, com a beleza, a alegria. Deus nos criou para a alegria. E a felicidade de Deus foi tanta que ele abandonou os espaços infinitos e eternos e passou a "passear pelo jardim no vento fresco da tarde." Ah! Então Deus tem prazer no vento fresco da tarde... Se Deus tem prazer no vento fresco da tarde o vento fresco da tarde é divino. Ser espiritual é gozar o vento fresco da tarde, gozar o perfume dos jasmins, sentir o gosto das frutas, deleitar-se na forma e nas cores das flores, amar as montanhas distantes, entregar-se ao frio da água das cachoeiras, sentir o arrepio nas carícias da pele. Deus amou tanto esse mundo de prazeres que ele mesmo criou - melhor não poderia ter sido criado - que resolveu tornar-se homem. Ser homem, de carne e osso, com olhos, ouvidos, nariz, boca, pele é melhor que ser espírito puro. Você quer ser espiritual? Abra os olhos e ande pelo jardim. No universo inteiro não existe nada mais divino...

Michelangelo por acaso pensaria que o mármore é coisa inferior? Mas como? Sem o mármore a Pietà nunca seria vista e amada! E ele ficaria feliz se não tivesse mãos, porque assim a Pietà permaneceria para sempre espírito puro! Deus por acaso acharia que o corpo é coisa inferior? Mas como? Sem o corpo o Verbo nunca viveria como carne e ele, Deus, amaria a morte. Porque com a morte o homem permaneceria para sempre espírito puro...

Espiritual é o jardineiro que planta o jardim, o pintor que pinta o quadro, o cozinheiro que faz a comida, o arquiteto que faz a casa, o casal que gera um filho, o poeta que escreve o poema, o marceneiro que faz a cadeira. A criatividade deseja tornar-se sensível. E quando isso acontece, eis a beleza!

Leia outras crônicas no site pessoal de Rubem Alves (rubemalves.com.br)






sábado, 20 de fevereiro de 2016

Homenagem à Umberto Eco



O NOME DA FLOR

Existem tulipas
Rosas, begônias e jasmins
Mas por que as chamamos assim?
A rosa não é rosa por ser rosa
Nem a espada-de-são-jorge
Por ser a arma do santo
Minhas flores não tem nome
Sequer são flores
Utilizo as palavras
Para que você leitor possa me entender
Elas apenas são
E como não sou botânico
Nem especialista em flores
Eu as contemplo sem pretensão
Não precisa identificar-lhes o nome ou profissão
Elas são o que são

Roldan Alencar
Barretos-SP
19-06-15

*Inspiração: O nome da rosa - Umberto  Eco (romance do escritor italiano 1932-2016) II nome della rosa

O ABRAÇO





Quanta ternura cabe num abraço
Ele traz afeto, calor
Ensina paz
Nos conforta...

Por um instante o mundo silencia
Ah, se as pessoas soubessem
o poder arrebatador de um abraço sincero

Desgrudariam um dos outros
Só para poder abraçar novamente!

Roldan  Alencar
"Posso ser leve como uma brisa ou forte como uma ventania,
Depende de quando e como você me vê passar."

Clarice Lispector