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terça-feira, 15 de outubro de 2019

Queremos ser Grandes | Reflexão


QUEREMOS SER GRANDES


Antes de desenvolver o texto, quero me valer da polissemia das palavras. Em relação ao título, quero me referir a criança querendo ser grande, adulta. Também quando queremos ser grandes no sentido de sermos maiores que os demais, no sentido denotativo, material da palavra. Seja em tamanho físico, seja em ser “melhor qualificado” em alguma habilidade ou condição - ser mais inteligente, mais bonito, mais rico, mais respeitado, mais amado etc, e por último, ser grande no sentido de se expandir, querer ser mais do que se é (no sentido abstrato, conotativo).

Quando criança eu não via a hora de ser grande. Imaginava que ser grande me traria muitos benefícios, afinal eu era subjugado pelos adultos, eu obedecia ordens: - faça isso, não faça aquilo, vá para cama, e avisos como: - você vai apanhar se fizer isso. É claro, eu me divertia, brincava, me sujava, era uma criança feliz, mas o sonho de ser adulto me inquietava. Alguns anos passaram e me tornei adolescente, fase repleta de descobertas e contradições. Nessa fase, os pais que outrora achavam que crianças pequenas davam trabalho, se sentem saudosos ao relembrar os primeiros anos de vida, principalmente quando desafiados pelo furor e insatisfação de um adolescente em crise. A verdade é que muitos se rebelam, querem sair de casa, querem independência, querem dirigir, eles querem ser grandes, tornarem-se adultos.

Finalmente quando chega a fase adulta, os compromissos e as responsabilidades aumentam e o "recém-adulto" começa a se lembrar com carinho e saudosismo da infância e resmunga: Eu era feliz e não sabia. Imagino que até mesmo antes da fase adulta, lá no ensino médio, à espreita do temido vestibular, alguns adolescentes já querem voltar a ser criança.

No mundo adulto a competição ganha novos ares. Já não é brincadeira. Quando criança eu nunca queria perder, queria ser melhor que as outras crianças e isso é natural.  A criança que perde se sente inferiorizada e segregada do grupo, com adultos a dinâmica não é muito diferente, mas agora o corpo já é grande. Não tem como fugir. É preciso encarar a realidade, mas homem, ser simbólico que é, mesmo não crescendo mais, pelo menos não verticalmente, sempre busca formas de ser maior. Assim, mulheres usam saltos, homem tentam ter músculos mais chamativos. O desejo de crescer não para. 

Noutro giro, pode-se dizer que a alma do homem é um vazio eterno que procura ser preenchido. E quando de certa forma é preenchido misteriosamente se esvazia de novo, surgindo uma crescente vontade de ser cheio mais uma vez. Assim queremos mais bens, queremos mais vitórias, queremos mais amores, queremos ser mais respeitados, queremos ser amados, queremos mais poder, queremos mais objetos, queremos sempre mais. Queremos ser maior do que somos. 

E neste ponto está a grande beleza da vida. Não em querer ser maior para diminuir os outros, mas ser maior para ser junto com os outros, somar. Aliás, o corpo não cresce mais, na verdade, após certa idade o corpo começa a deteriorar-se e muitas pessoas acham que a alma envelhece também. Mas a alma é infinita. Ela é elástica. O vazio que sentimos, não é porque a alma se esvaziou ou cresceu o que tinha que crescer, mas sim porque ela não para de evoluir nunca, ela sempre cria novos espaços. 

O desejo de ser mais torna a vida mais gostosa de viver. Reviver momentos e querer mais daquilo que nos fez bem é uma exigência da alma. Descobrir novas fontes sem deixar de apreciar o Sol que se poe todos os dias. Veja, o corpo pede comida e ele pede comida na quantidade exata. Mas nós inventamos sabores, pratos, franquias e comemos além, não é à toa que o mundo nunca teve tantos obesos. O corpo pede sono, nem pouco nem muito. Mas nós sempre damos um jeito deixá-lo aquém ou  além, quando dormimos de madrugada e acordamos cedo ou quando dormimos de madrugada e acordamos na noite seguinte. 

Assim, o que devemos procurar é a razoabilidade, o equilíbrio. Ouvir o que a voz interna pede. É impossível negar a influência dos acontecimentos em nossas vidas. Afinal, não escolhemos muitas coisas. Quando e onde nascemos, não pedimos para ser ricas ou pobres, brancos ou pardos, inteligentes, asiáticos ou africanos. Não sabemos  os dilemas do amanhã. Não sabemos nada. Talvez isso explique um pouco o desejo da criança ser adulto. Para que se possa fingir o controle sobre a vida, pois é exatamente isso que nós adultos fazemos. E quando perdemos ou desafiamos essa ilusão, o resultado muitas vezes é trágico: tristeza, descontentamento, depressão. Parece nos falta um destino, pois já dizia Lewis Carroll para quem não sabe onde ir, tanto faz ir ou ficar.

Para as crianças os adultos controlam o mundo de forma absoluta, quando na verdade, sabemos que somos quase sempre controlados por forças maiores ou desconhecidas. Eu disse quase. Porque nesse quase, cabe infinitas maneiras de viver. E nesse quase podemos fazer tanta coisa que não precisaremos ter a ilusão de controlar nossas vidas, nos bastará a certeza de que estamos fazendo e entregando o nosso melhor - para que a vida seja feliz e bela seja onde e como for, como assevera o ensinamento budista: a dor é inevitável, mas o sofrimento é opcional. 

Roldan Alencar



domingo, 13 de maio de 2018

QUOTIDIANO

Antes que você me corrija, adianto que a grafia do título está correta. Aliás, a grafia "cotidiano" também está correta. Agora vamos nos concentrar no tema. Quantos de nós já reclamamos, em algum momento da vida, que estamos cansados da nossa rotina. Cansados da mesma atividade diária, dos mesmos lugares e das mesmas pessoas. Seja honesto, você já se queixou alguma vez (ou várias). E isso é normal. Não é à toa que gostamos tanto de viajar (pelo menos muitos de nós). A mente precisa do novo. Isso não significa que precisamos endemonizar o quotidiano. Nossa vida acontece no dia a dia. Afinal, só em filmes os personagens vivem loucamente e está tudo bem. Na vida real, até os artistas e famosos precisam de quotidiano e sentem falta dele. Eles adoram viajar, interagir com o público, receber a energia dos fãs. Mas eles sentem falta da casa deles, da família deles, da cama deles. Ah, o lar. É um lugar tão especial. 

Não podemos esquecer que o quotidiano nos dá segurança, equilíbrio. E isso é fundamental no mundo maluco e tecnológico em que vivemos. Não saber para onde ir ou o que fazer no amanhã, pode parecer legal e desafiador. Mas imagine isso o tempo todo. Imagine a angústia que essa incerteza irá nos gerar, com certeza isso irá nos consumir aos poucos.  Acredito que o segredo está no equilíbrio (o que parece óbvio, mas não é). Precisamos sempre procurar o desenvolvimento pessoal, procurar novas coisas para fazer, novas habilidades, novas amizades. Mas sem jamais esquecer dos nossos princípios e principalmente daqueles que estão ao nosso lado. Não deixe um amor por outro, não deixe uma amizade por outra. É claro, se houver justo motivo, afasta-se de tudo aquilo que tira sua paz, não importa se é uma pessoa ou seu emprego. 

Falar em quotidiano é falar em felicidade, pois nossa vida acontece nele. E por isso, não podemos esquecer que a felicidade não está na chegada, pois ela é o próprio caminho. A felicidade não localizada no final de semana, no happy hour ou nas férias. Com certeza ela pode estar nesses lugares. Também pode ser encontrada num objeto ou situação. Mas essa felicidade é efêmera. Muitas vezes não é sequer alegria, tra-se apenas de euforia. Para ilustrar a ideia de caminho, imagine um alpinista que treinou anos e se esforçou muito para escalar o Monte Everest. Ao chegar no pé da montanha ele é, misteriosamente, teletransportado para o topo. Imagine a frustração dele ao saber que não escalou nada, ou seja, não participou do caminho. Você já reparou que muitas vezes nos divertimos mais na expectativa e nos preparativos de uma festa ou viagem, do que propriamente na viagem ou no evento?

A felicidade real está aqui, no agora. Está no quotidiano. Está dentro de nós. A sensação de uma vida com propósito está em cada fio que  tecemos diariamente. E será encontrada na casa que você está agora, no seu trabalho atual e com as pessoas que você ama. Se não gostamos de onde estamos e não mudamos, algo está extremamente errado. É preciso fixar raízes, mas não se estagnar. É preciso mudar, mas não o tempo todo. Desbrave o mundo e faça as mudanças necessárias. A pergunta que devemos refletir é: eu gosto do meu quotidiano? O que posso melhorar ? (sempre existe algo a melhorar). Posso acrescentar algo? Se não gosto de algo, o que estou fazendo para mudar isso?

Para chegarmos a essas respostas, o crescimento pessoal e espiritual deve ser uma constante (e não importa se você tem religião ou não). A razão (lógica) deve estar alinhada com os anseios da alma. Por isso é preciso evitar a lamúria,  ela é extremamente venenosa. Se não gostamos de algo devemos lutar para mudar. Por isso o conhecimento interior é imprescindível. Os gregos há milênios já diziam "conhece-te a ti mesmo e conhecerás todo o universo e os deuses, porque se o que procuras não achares primeiro dentro de ti mesmo, não acharás em lugar algum"*. Que possamos ter discernimento para saber o que mudar e coragem para fazer essa mudança. E por fim, que jamais nos esqueçamos: quem é grato no pouco, será grato no muito.

Namastê,

Roldan Alencar

*frase escrita no Templo de Delfos na Grécia.

sexta-feira, 11 de maio de 2018

SEJA INCIPIENTE
NÃO SEJA INSIPIENTE

De novo. Mais uma vez você com palavras homófonas? Exato. Incipiente é aquilo que é novo, aquele que é iniciante,  principiante. Não importa o que fazemos, sempre podemos evoluir e sempre podemos aprender coisas novas. O objetivo não é ser perfeito (do latim feito por completo), o objetivo é fazer aos poucos, mas fazer bem feito e sempre (nunca parar). A vida é tão linda, tanta coisa para fazer e conhecer, então a qualidade de incipiente é um convite para uma vida com mais cor, mais energia. 

De outra sorte, insipiente significa ignorante, aquele que desconhece algo ou deliberadamente, tendo a oportunidade, desdenha do novo. Não seja insipiente, não feche as portas da sua alma para o novo, para o diferente. Tenha raízes e não âncoras. A raiz alimenta, a âncora te impede de sair do lugar (zona de conforto - fuja dela). Não tenha medo de errar, aprenda com o erro e comece quantas vezes for necessário. Mas só recomece aquilo que alimente seu coração, não insista em caminhos tortuosos, caso contrário você será um incipiente insipiente. Não aprenda algo somente para agradar alguém, não seja um incipiente alienado. Não, por favor! Tenha propósito, objetivo. Como diria Sri Prem Baba: ação sem alma é passatempo. Faça com vontade. Seja um incipiente apaixonado pela vida, pois sempre haverá algo novo e incrível para aprender.

Namastê!

Roldan Alencar


p.s tire seus sonhos e projetos do papel. Não se ache velho ou incapaz para aprender um novo idioma, um instrumento musical, artesanato, culinária etc. Nunca se esqueça: "A vida é um muito curta pra ser pequena" ~ Benjamin Disraeli.

terça-feira, 19 de dezembro de 2017

Quando me leem (mensagem de final de ano)




Quando alguém me diz: Li o que você escreveu....
É como se lessem a mim (como corpo material)
Me sinto feliz
Mesmo que digam: não gostei!
Tudo bem. É impossível agradar a todos e graças a Deus existe a diversidade.
Ah se todos gostassem da mesma cor, do mesmo tom, da mesma risada, da mesma cidade...

Que mundo sem graça!

Nas palavras eu me transbordo
Como dizia Rubem Alves (um dos meus autores favoritos)
A arte de escrever e ler é antropofágica
Quando eu leio Rubem me sinto energizado por sua alma
E quando escrevo também transmito minha essência

Quando me leem
Enxergam aquilo que não posso mostrar
Aquilo que é invisível aos olhos
Embora a leitura seja quase sempre visual ou tátil
Ela vai além, chega lá no fundo da alma

Não sou tudo o que escrevo
Embora eu seja muito do que leio

Não que eu tenha vivido tudo o que escrevi
Mas certamente em algum momento tudo que escrevi existiu


Pois abstratos que somos
Vivemos realidades utópicas
E na busca disso
Vivemos a incessante  busca do amor e da felicidade real
E quando o abstrato se encontra com esse real
É uma explosão cósmica de energias


A vida é uma estrada
É preciso caminhar
Quem para no meio do caminho perde a vontade de viver
A bicicleta não cai enquanto estiver em movimento

No meio do caminho tinha uma pedra
Que foi colocada estrategicamente
Pra nos ensinar e nos alertar

Você pode tropeçar
Seja humilde olhe para baixo
Junte as pedras e construa sua edificação

A pedra é tudo aquilo que nós chamamos de problema (s)
E quem disse que pra vida ser boa tem que ser perfeita?
Os problemas fazem os dias alegres, porque se não houvessem problemas e tudo fosse perfeito eu me indago, estaríamos felizes?

A vida precisa desse balanço, dessa comparação, dessa roda-gigante. É claro não precisa ser uma monta-russa, mas às vezes é.

O importante não é chegar, o importante é nunca parar!

A você que chegou até aqui  minha gratidão,  meu muito obrigado! Mesmo que você não me conheça você já faz parte da minha vida e eu da sua. E se você já me conhece, eu espero sinceramente ter sido um bom amigo e boa lembrança.

Se esse texto te fez refletir, já me sinto feliz e recompensado.

Desejo a você um feliz 2018, com muita energia positiva, alegria e amor! A caminhada continua!


segunda-feira, 5 de junho de 2017

Cuidado com a indução vulgar!!!!

Todos nós somos mestres nos "achismos". Somos especialistas em analisar, julgar e corrigir os atos alheios baseados apenas em "lapsos" de observação.  Isso na metodologia científica tem nome: indução vulgar, vejamos:

A tendência do homem é generalizar propriedades, características ou qualidades comuns, a partir de alguns casos observados superficialmente. Entretanto, como não há critérios para o controle dos casos observados, a indução vulgar induz facilmente ao erro. Aliás, este é o perigo de toda generalização apressada, como neste exemplo:

Conheço três universitários que não levam a sério seus estudos.
Portanto, os universitários não levam a sério seus estudos.

(ALVARO, João Ruiz. Metodologia Científica  - Guia para Eficiência nos estudos. p. 140, Atlas, São Paulo - 1992).

Então, vamos estudar mais e julgar menos. A verdade é uma construção individual e nem sempre é de bom tom compartilhar. Como sempre dizia minha: Roldan, você tem dois ouvidos e apenas uma boca, então escute mais e fale menos.

Grande abraço galera!

Roldan Alencar

domingo, 6 de março de 2016

"Posso ser leve como uma brisa ou forte como uma ventania,
Depende de quando e como você me vê passar."

Clarice Lispector